7.12.08

O verbo ficar

Usar as coisas, amar as pessoas. Nunca o contrário!

O verbo mal conjugado em nosso século é o “ficar”. Graças a ele, vejo os meus contemporâneos sofrerem com os resultados de suas ações. Acreditam em quase tudo que essa forma verbal possa oferecer por sua natureza quase instantânea de concretização.
Confiam os mais sábios que ele pode ser conjugado a dois e dar certo no futuro. Falam como se uma ação verbal tão ultrapassada fosse substituir, além de evitar, as mazelas de um tradicional namoro.Hoje, pense bem, não temos uma verdadeira conversa. Daí as mulheres recorrerem à velha desculpa de que os homens odeiam discutir relacionamento. Não admito tal posição se, pelo menos, ela “ficou” o tempo necessário conversando com o seu par, antes do relacionamento tornar-se sério e duradouro.
O amor virou algo de experiência e “ficou” distante de sua natureza poética. Para Diotima, no livro “Diálogos” de Platão, ele seria definido, em síntese, por uma única frase: “O amor é o desejo da posse perpétua do que é bom.”Isso pode ser um exemplo filosófico, mas representa irrefutavelmente a banalização desse sentimento em nossos dias. Camões também nos ajudaria com a paráfrase bíblica em que “O amor é fogo que arde sem se ver”. E poderia trazer exemplos de nossa realidade também.
O meu alerta faz-se necessário pelo “sucesso” obtido por esse verbo em todas as práticas sociais. Escolhi o exemplo central, visto que os outros são conseqüências dele.Se não desejamos amar perpetuamente à pessoa com quem vivemos ou àquilo que fazemos, o que estamos praticando?Aí aparece uma esdrúxula expressão como “mal-ficada” que explica todos os aborrecimentos dos jovens com a maior solução do planeta.
Conheço vários que “ficam” em depressão, com ansiedade e “ficam” ranzinzas diante do amor. O quadro se agrava com algumas jovens que atribuíram, ao termo, as suas fantasias. “Ficaram grávidas, sem apoio da família e sem perspectiva de vida.Na vida social, os jovens desejam “ficar” ricos numa outra ilusão impossível. Ainda, “ficam” bonitos na academia para defenderem o próprio corpo como personalidade.
Por outro lado, defendo o amor. Esse sentimento pode ser alimentado com qualquer outro que nunca nos deixará arrasados com a vida.“O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita o mal;” Isso era o que Camões tentava nos dizer quando parafraseava esse trecho da Bíblia já na Renascença.
No entanto, devemos ressaltar o espírito inovador daquele século que ultrapassa o nosso. A história pode comprovar a minha afirmação. O “ficar” retirou, por acaso, a magia do ocasionalismo do amor. Ninguém mais acredita em amor à primeira vista, embora acreditem na existência do romantismo.Acho impossível haver um romance (não falo sobre o literário) sem o mistério proporcionado entre os olhares amorosos. O “ficar” está longe de professar esse agradável “ocultismo”. Sempre sabemos, após uma festa, com quem fulano ou fulana “ficou”!Enfim, devo “ficar” por aqui. “Fiquei” além do limite para questionar os limites para questionar os limites desse verbo tão estranho que as pessoas insistem em conjugar. Eu prefiro ser tradicional e amar eternamente o que há de melhor em nossa vida: O amor.
Obs.: Final de ano e eu postando um texto antigo que li no amigo oculto da turma da especialização. Um dia ainda consigo publicá-lo em um livro. Engraçado como ele ainda continua muito atual..

4 comentários:

Vanessa disse...

Volta e meia o que leio aqui inspira a escrever tb. Vou roubar seu texto e passá-lo adiante. Com os créditos , obviamente. :-)

beijos

Mar disse...

Rômulo, não entendi! Esse texto foi escrito por você ou não? Se não, por quem? Desculpe a lerdeza!

Gostei do texto, apesar discordar de muitas coisas. O amor de que falam os poemas de Camões, Shakespeare, Vinícuis e tantos outros são muito raros! Existem? Acredito, mas são raros! Acredito também em banalização, mas não do amor, mas do contato físico: houve a banalização do beijo, do sexo, o que é uma faca de dois gumes, tem seu lado bom e seu lado ruim! Banalizar o amor... é impossível...

O que acontece, acredito, é que devido a neurose do "imediatismo", as pessoas estão amando menos o próximo e amando mais e somente a si mesmas! Sim, porque convenhamos, amar o próximo dá trabalho: é preciso aceitar, dividir, tolerar! E nós somos muito egoístas... sempre fomos! Não acredito que o problema esteja no "ficar" (não falo aqui do "ficar" dos adolescente, que é um ficar desenfreado, fica-se sem nem ao menos saber o nome da pessoa), visto que esse é o princípio de muitas relações sinceras e duradouras (não vamos generalizar, portanto!). O problema é o próprio ser humano e seu eterno egocentrismo!

Ficar, em dias como os de hoje, tão velozes... acaba sendo uma forma de selar um conhecimento especial de duas pessoas... mas aí eu já devo estar falando de um outro ficar diferente do especificado pelo texto proposto... enfim, deixa pra lá... isso é muito complicado!

Bjs

Rômulo disse...

Bom..esse texto é de minha autoria sim. E, como não é uma poesia, "fica" mais fácil de explicar..hehe Concordo em muitos aspectos no que você falou, mas discordo quanto ao ponto do ser humano ser um eterno egoísta. Como você mesma disse:(não vamos generalizar, portanto!). Ao mesmo tempo, entendo o que você quis expor. Pode ser uma visão ingênua minha, mas acredito que a Sociedade (a formação de grupos) é que corrompe o ser humano. Aí ele confunde individuação (ser singular) com individualismo. Alguns jovens de nossa época aceita padrões coletivos na ânsia de serem aceitos como são. O "ficar" de que fala esse texto está nesse sentido. Sei que há uma dose muito conceitual nele e que na prática a vida é outra. Os poetas falam de amor da forma inatingível, porque procuram na poesia enfatizar a complexidade desse sentimento incontrolável. Enfim, espero ter confundido ainda mais o nosso comentário..rsss

um abraço

Mar disse...

Mas se a sociedade é constituída por seres humanos! Então... quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?!

Achei muito feliz a sua colocação:"Aí ele confunde individuação (ser singular) com individualismo"

concordo plenamente... assino em baixo!

Mas continuo acreditando que a maioria, a grande parte dos ser humano, em peso, é egocentrísta, egoísta sim!rs Eu sou/ Tu és/ Ele é/ NÓS SOMOS!!rs

Agora que há exceções há... não duvido.. mas caso encontre uma por aí, por favor, me apresente a ela!rs

Bjs