5.1.13

Velas


Às vezes me confundo com as luzes sobre minha cabeça. Não sei a direção ou a origem delas no meio de tantos acontecimentos. Faz muito tempo que não escrevo. Não participo de eventos de poesia e estou há um mês afastado do metiê acadêmico. Idéias são como luzes de velas. Elas só têm o seu vigor enquanto estão acesas.
Na minha infância mesmo, ficava brincando de apagá-las numa guerra irritante. Passava a mão sobre elas, mas a intensidade e o calor me afastavam. De longe, minha mãe falava: - Não brinca com fogo menino! Um escritor deveria saber o perigo de se queimar. Afinal, somos chamuscados, todos os dias, por agressões verbais, ações silenciosas de inimigos e pela falta de ânimo com o convívio coletivo.
E para se viver em sociedade não se deve ter pavio curto. As pessoas andam evasivas e qualquer opinião divergente lhe queima por toda uma vida, diante do círculo em que vive. Talvez minha natureza revolucionária queimou gradativamente a vela da escola, da universidade, do trabalho, etc... Mas o que resta desta criança solitária? Nenhum homem é uma ilha.
A idade não se sabe mais. São as experiências que me dimensionam. Elas fazem enxergar além do muro de hipocrisia de nosso cotidiano, ainda que esse ato seja mais criminoso do que derrubar o muro de Berlim. Daqui a pouco irão me condenar ou processar o texto, porque não entenderão a metáfora do muro. Aliás, o homem perdeu a capacidade metafórica de ler e ouvir. É como se a vela estivesse ali sem brilho nenhum.
Admito que me sentia assim há uns dias atrás. As palavras de minha mãe fizeram sentido. A distância das coisas e das pessoas começava a ser perigosa. Ela se fazia de dentro pra fora. Meu corpo derreteu como parafina no fim, mas ninguém pode ver. Foi corte profundo em que só retomar o que se perdeu não adiantaria. A tristeza só é bela nos livros. No mais, viver é dolorido. Não acho realista acreditar que quem vive seja feliz. E, só agora, perto dos meus 30 anos, começo a entender Schoppenhauer.
As ideias nascem desta forma. Elas adquirem nome, quando o aprendiz passou pela mesma experiência do criador. Algumas nascem órfãs, dando trabalho a quem as geriu. Tenho diversas concepções de que não tenho a mínima ideia de onde surgiram. No entanto, fica fácil contar o número das que foram vividas. A não ser que, como ocorre com a vela acesa, surjam interferências externas que mudem o rumo das chamas. Afinal, a verdadeira chama interfere nas velas com as bases mais fortes. Continua queimando entre o sopro do vento da discórdia e a brincadeira inocente de uma criança.

Um comentário:

Juliana Vicente disse...

Que texto!

Não permita que a dificuldades da vida apague a chama que nasceu com você!

Gostei muito das suas palavras e me identifico com você.

Beijos