3.5.09

Livro

Algumas pessoas são como livros. Dependendo do tempo em que as lemos, a nossa interpretação pode ficar dúbia ou clara. Acordei com esse pensamento em mente e hoje tudo parece menos claro do que antes. Dei-me a escrever... As palavras não são o refúgio, mas me levam ao encontro daquilo que chamam por aí de Psique.
Às vezes, penso nesse psicologismo barato como um véu da realidade. Muita gente crê que pode controlar a sua vida a partir dele. Aprendi a ver o mundo com a sagrada janela da alma. O que, para muitos, é pura “breguice”, eu adoto na vontade da super-interpretação do ser. O olhar esconde muito menos do que o ser humano pensa.
Transpô-lo para algo material é muito pouco. Afinal, viver com pouco devia ser a grande sabedoria desse século. Somos o reflexo do exagero e o complexo de diversas almas gritando por si. Entender a si mesmo não passa de uma tentativa de compreender esse mundo fantástico, que não acredita mais em sua própria realidade.
A Psicologia chamaria isso de esquizofrenia. Projetamos o nada para além de sua existência. O existencialismo bate, há anos, em nossa porta. Alguns sabem acolhê-lo, enquanto outros se afogam em sua insignificante vida. Daí que a linguagem reaparece nas páginas do cotidiano. Os jornais sempre querem nos dizer o que nunca pode ser dito.
Cada capítulo está no olhar de quem vê. Ontem mesmo, senti saudade daquela moça esguia e bela. E o que lembrei? Lá estavam os seus olhos apontando para mim. Perdia-me com o debruçar na janela e pensava o porquê de não pensar com ela. Alguns diriam que isso é amor.
Desconfio que seja, embora não acredite em definições para os sentimentos. Sentir é muito mais. Agora mesmo foi um sentimento que me trouxe a escrever. Se você me lê, também foi o mesmo processo. Viu as palavras diante de si e se pegou nesse parágrafo.
Aí fica procurando me decifrar, como um amigo meu fez certa vez. Disse-me que era uma mistura de Clarice com Machado. A amizade foi comprovada nesse momento. Somos seres de lupas maiores diante daqueles que admiramos. O cego não é pior por não querer ver, mas por tentar ver além do que já está tão explícito. Sim. Sempre esteve lá.
O filósofo alemão Heidegger tinha uma expressão “Dasein”, que não vi ninguém conseguir explicar até hoje. No entanto, entendo-o a meu modo. Ser ali ou acolá é uma questão de “opiniães”. O certo está no incerto do autor de sua própria vida. Não importa o nosso nome, se não importarmos nominalmente o que somos. Uma alma exige muito mais do que um corpo.
O mistério da psique consiste em ser humano. Devemos humanizar a vida com o convívio do ser com o outro. Daí diremos mais do que notas de rodapé. Seremos o impulso para a roda do acaso e aceitaremos o irreconhecível do que conhecemos. Essa viagem perpassa o nosso cérebro com a força das mensagens enviadas a ele. E, mais uma vez, a linguagem se mescla à vida.
Não a favor do escrever pelo escrever. Para mim, devemos nos entregar ao que nunca fomos para entender o que queremos ser. O meu sonho sempre foi ser escritor. Entretanto, há mais mistérios em minha psique do que a vã filosofia do mundo possa nos oferecer. A decifração do enigma está no confronto com as leituras de vivências. Viver e não ter a vergonha de ser feliz...
Como não sou de cantar, prefiro escrever a certeza de ser um eterno aprendiz. Aprendo o desenrolar de cada parágrafo subjacente. O olhar das entrelinhas permanece no intangível sem que possa acompanhar a sua tradução. Deixo-me mergulhar por caminhos nunca antes visitados e declamo os ditames do meu coração. Psique? Será? Preciso sair para por o pé na realidade.

4 comentários:

james p. disse...

Rômulo,por incrível que pareça,também acordei pensando nisso hoje.E fico pensando no que nos leva a ainda,como espécie,estar tão longe de um ideal de igualdade,liberdade,fraternidade.Tenho lido muito Heidegger,Foucault e Sartre,a procura de um pouco de luz,que é o que mais precisamos nesse momento delicado da história.Como sempre,belísimo e ponderado post,cheio de grandes'insights'para todos.Uma grande abraço e escreva mais.

Cristiane Marino disse...

Oi Amigo Rômulo!

Sempre seus textos me fazem pensar e me envolvo em seus escritos.

As pessoas são como livros...gostei mesmo disso e sabe você tem razão, queremos entender cada ação/capítulo de alguém, e quanto mais se tenta "desvendar" menos se entende desse "livro".

# tem selo para vc!
bjos

Compulsão Diária disse...

O que importa é a realidade psíquica. Só ela existe!

Emile disse...

é bacana comparar pessoas com um livro. tem sempre uns mais interessantes do que outros. eu teria você na minha estante. abraços.