4.2.09

Obrigado

Aos que me dão lugar no bonde
e que conheço não sei donde,

aos que me dizem terno adeus,
sem que lhes saiba os nomes seus,

aos que me chamam deputado
quando nem mesmo sou jurado,

aos que , de bons, se babam: mestre!
inda se escrevo o que não preste,

aos que me julgam primo-irmão
do rei da fava ou do Hindustão,

aos que me pensam milionário
se pego aumento de salário

-e aos que me negam cumprimento
sem o mais mínimo argumento,

aos que não sabem que eu existo,
até mesmo quando os assisto,

aos que me trancam sua cara
de carinho alérgica e avara,

aos que me tacham de ultrabeócia
a pretensão de vir da Escócia,

aos que vomitam (sic) meus poemas,
nos mais simples vendo problemas,

aos que, sabendo-me mais pobre,
me negariam pano ou cobre

-eu agradeço humildemente
gesto assim vário e divergente.

graças ao qual, em dois minutos,
tal como o fumo dos charutos,

já subo aos céus, já volto ao chão,
pois tudo e nada nada são.


Carlos Drummond de Andrade

2 comentários:

Vanessa disse...

eita verso bão!

Filipe Garcia disse...

Bonito, não?

versos inigualáveis.